Uma história por Dânia Rodrigues
Na minha primeira visita a Meghalaya, ouvira falar numa aldeia perdida num vale encantado, encaixada algures entre as remotas colinas. Kongthong teve a primeira ligação estradal apenas em 2009; e acesso à electricidade seis anos mais tarde. Mas a particularidade desta povoação era que o nome de cada um dos seus 700 habitantes era… um assobio. Este tipo de comunicação é único em Meghalaya, e extremamente raro no resto do mundo; o isolamento em que a aldeia viveu durante tanto tempo permitiu conservar esta característica tão peculiar.
A primeira vez em que tomei conhecimento da sua existência, Kongthong era um local ainda virtualmente desconhecido, e não havia qualquer informação sobre este lugar na Internet. Mas bastaram uns posts de Instagram, aliados ao crescimento exponencial do turismo interno indiano, para a aldeia ser colocada no mapa e começar a receber os seus primeiros turistas. Assisti em demasiados lugares o que acontece nestas situações: em dois ou três anos, as localidades idílicas tornam-se em paraísos perdidos, selvas de cimento em construção, com tapeçarias de plástico a cobrir os quintais das casas e bermas da estrada; os riachos ficam transformados em esgotos acizentados a céu aberto, exalando cheiros nauseabundos. A pacata vida da aldeia é transformada: ao introduzir a ideia de lucro fácil, o novo intuito dos habitantes torna-se o de extorquir o máximo de dinheiro aos visitantes, subvertendo os valores básicos e o sustento básico das comunidades.
O mesmo fenómeno teria seguramente acontecido em Kongthong se não fosse por Rothel Khongsit, um indivíduo visionário que se apercebera do valor único das suas tradições tão peculiares, e que se comprometera em utilizar o potencial do turismo que estava a iniciar de forma muito incipiente para o bem-comum da sua aldeia. Rothel acolheu-me a mim e ao meu companheiro por ocasião da nossa primeira visita à aldeia no início de 2019. A primeira agradável impressão foi a da limpeza da povoação: canteiros das casas verdejantes, organizados com grande sentido estético, trilhos de terra batida impecavelmente limpos, cestos do lixo de vime espalhados por toda a aldeia. Algumas povoações Khasi têm uma característica muito especial: parecem estar integradas dentro da floresta. Em todas as outras tribos que conheço existe uma separação muito distinta entre natureza e cultura; os dois mundos não se misturam. Mas em Kongthong a natureza é tão omnipresente que é fácil esquecer que nos encontramos dentro do mundo ‘civilizado’. A aldeia parece ‘encaixada’ na floresta: à sombra de árvores nativas encontramos casas e pequenos pedaços cultivados; as pequenas estradinhas imaculadas da aldeia são ladeadas por arbustos e sebes de onde despontam papaieiras, jaqueiras, ananases, plantas carnivoras, árvores de betel, e flores de todas as cores e feitios. Os Khasi preservam de facto uma ligação muito especial com o mundo natural: mesmo nas cidades grande parte das casas expõem orgulhosamente dezenas de vasos, com flores coloridas e outras plantas, como se não quisesse renunciar à sua ligação com a natureza mesmo em ambiente urbano.
Em redor de um delicioso almoço orgânico, Rothel explicou-nos a sua visão de desenvolvimento para a sua terra natal. Para tentar evitar os aspectos negativos que o turismo iria trazer, Rothel constituiu uma cooperativa com os vários aldeões, de modo a que as receitas do turismo sejam compartilhadas entre várias famílias. Para alojar os visitantes, promoveu a construção de duas casas típicas em bambu com telhado de palha. As cabanas são extremamente espartanas: têm apenas quatros colchões no chão dispostos em redor de uma lareira central; o único luxo que possuem é uma casa de banho externa. A electricidade e a água quente são fornecidas por painéis solares. Rothel explicou-nos que deste modo esperava atrair um tipo de turista genuinamente interessado na cultura local, que pudesse contribuir para a sua preservação em vez de causar a sua destruição. A sua ambição é a de que um dia Kongthong venha a ganhar o estatuto de ‘heritage village’.
Ao longo das visitas sucessivas, com grupos de amigos e viajantes, observámos como Rothel se mantivera fiel à sua visão, e aos poucos manifestava o seu sonho. Apesar da aldeia se começar a modernizar e se virem cada vez mais construções em cimento, Kongthong preserva ainda o seu encanto indizível. O dinheiro produzido pelo turismo tinha sido utilizado na construção de uma enorme cisterna para satisfazer as necessidades de água da povoação. A aldeia continuava tão limpa quanto antes, os habitantes entretidos nas suas ocupações locais. O som dos assobios ecoava um pouco por todo o lado, compondo alegres melodias que se coadunavam perfeitamente à atmosfera do local.
As excursões à volta da aldeia proporcionavam sempre também experiências encantadoras. As caminhadas pelos penhascos escarpados conduziam a entrelaçadas pontes de raízes vivas, a piscinas de água incontaminada, a pequenas e grandes descobertas a cada curva. Os miradouros em redor da aldeia recompensavam sempre com uma paisagem arrebatadora, composta de várias sucessões de montanhas de um azul cada vez mais esbatido. Apesar de tudo isto, o ponto alto de Kongthong encontra-se mesmo na voz e na memória viva dos seus habitantes.
Na segunda visita, o nosso tímido guia Phidingstar fez-nos entrar numa cabana exígua, toda construída em bambu, e acomodamo-nos à volta da fogueira. Pouco depois chegou a sua mãe, uma senhora com a habitual estatura diminuta Khasi mas com um enorme sorriso, que os seus dentes ligeiramente proeminentes faziam ainda mais irresistível. Shidiap Khongsit era uma comunicadora nata, cheia de vontade de transmitir as suas histórias apesar do obstáculo da língua. Explicou antes de mais que, apesar de já possuirem uma casa em cimento, ela sentia-se mais à vontade ali, nesta humilde cabana onde passara toda a sua vida e onde crescera os seus filhos. Raramente utilizava aquela habitação impessoal, que não considerava sua.
Por intermédio do filho, contou-nos que naquela aldeia, todas as mulheres começam a compor uma música para o seu bebé poucos dias depois dele nascer, e incorporam nesta melodia todo o amor que sentem pelo seu recém-nascido. Compõem uma versão mais comprida, de 20 ou 30 segundos, que é o nome da criança; e uma bastante mais curta, de 3 a 5 segundos, que se torna na abreviatura. Cantou em sucessão o nome completo de cada um dos quatros filhos, e o dos outros visitantes que partilhavam connosco o chá. O tom de tais melodias naquele contexto era hipnotizante: sugeria um mundo povoado por criaturas fantásticas e forças desconhecidas, que espreitavam entre as frechas escuras e das sombras projectadas pelos nossos anfitriões.
Shidiap explicou-nos ainda que a música é exclusiva para cada membro da aldeia, e não existem duas músicas iguais; quando uma pessoa morre, a música morre com ela. Na aldeia, as pessoas tratam-se apenas pela versão mais curta do nome; mas quando vão trabalhar para os campos usam frequentemente as versões mais longas – estas melodias meio assobiadas viajam muito melhor do que a simples voz e revelam-se um instrumento de comunicação muito eficaz e adaptado à realidade local. Phidingstar sabia o nome completo pelo menos de 100 pessoas da aldeia, e a versão curta de muitas mais.
Ao longo da sua vida, Shidiap e Phidingstar nunca pensaram que houvesse nada de extraordinário com esta tradição da aldeia: era algo de natural, algo que sempre fora assim desde os tempos mais arcanos. Certamente nunca pensaram que um dia poderiam ser galardoados por algo do género. Mas recentemente, um dos ministros do governo indiano tomou conhecimento desta povoação e seus peculiares costumes, e colocou-a debaixo da sua alçada: chegou a fazer Shidiap voar até Deli para ser condecorada pelo próprio primeiro-ministro Modi, ao qual cantou o nome em assobios que lhe compusera pouco antes. Hoje compreendem o valor e unicidade desta tradição, partilhando-a e preservando-a com orgulho e muito amor.
Em redor de um delicioso almoço orgânico, Rothel explicou-nos a sua visão de desenvolvimento para a sua terra natal. Para tentar evitar os aspectos negativos que o turismo iria trazer, Rothel constituiu uma cooperativa com os vários aldeões, de modo a que as receitas do turismo sejam compartilhadas entre várias famílias. Para alojar os visitantes, promoveu a construção de duas casas típicas em bambu com telhado de palha. As cabanas são extremamente espartanas: têm apenas quatros colchões no chão dispostos em redor de uma lareira central; o único luxo que possuem é uma casa de banho externa. A electricidade e a água quente são fornecidas por painéis solares. Rothel explicou-nos que deste modo esperava atrair um tipo de turista genuinamente interessado na cultura local, que pudesse contribuir para a sua preservação em vez de causar a sua destruição. A sua ambição é a de que um dia Kongthong venha a ganhar o estatuto de ‘heritage village’.
Ao longo das visitas sucessivas, com grupos de amigos e viajantes, observámos como Rothel se mantivera fiel à sua visão, e aos poucos manifestava o seu sonho. Apesar da aldeia se começar a modernizar e se virem cada vez mais construções em cimento, Kongthong preserva ainda o seu encanto indizível. O dinheiro produzido pelo turismo tinha sido utilizado na construção de uma enorme cisterna para satisfazer as necessidades de água da povoação. A aldeia continuava tão limpa quanto antes, os habitantes entretidos nas suas ocupações locais. O som dos assobios ecoava um pouco por todo o lado, compondo alegres melodias que se coadunavam perfeitamente à atmosfera do local.
As excursões à volta da aldeia proporcionavam sempre também experiências encantadoras. As caminhadas pelos penhascos escarpados conduziam a entrelaçadas pontes de raízes vivas, a piscinas de água incontaminada, a pequenas e grandes descobertas a cada curva. Os miradouros em redor da aldeia recompensavam sempre com uma paisagem arrebatadora, composta de várias sucessões de montanhas de um azul cada vez mais esbatido. Apesar de tudo isto, o ponto alto de Kongthong encontra-se mesmo na voz e na memória viva dos seus habitantes.
Na segunda visita, o nosso tímido guia Phidingstar fez-nos entrar numa cabana exígua, toda construída em bambu, e acomodamo-nos à volta da fogueira. Pouco depois chegou a sua mãe, uma senhora com a habitual estatura diminuta Khasi mas com um enorme sorriso, que os seus dentes ligeiramente proeminentes faziam ainda mais irresistível. Shidiap Khongsit era uma comunicadora nata, cheia de vontade de transmitir as suas histórias apesar do obstáculo da língua. Explicou antes de mais que, apesar de já possuirem uma casa em cimento, ela sentia-se mais à vontade ali, nesta humilde cabana onde passara toda a sua vida e onde crescera os seus filhos. Raramente utilizava aquela habitação impessoal, que não considerava sua.
Por intermédio do filho, contou-nos que naquela aldeia, todas as mulheres começam a compor uma música para o seu bebé poucos dias depois dele nascer, e incorporam nesta melodia todo o amor que sentem pelo seu recém-nascido. Compõem uma versão mais comprida, de 20 ou 30 segundos, que é o nome da criança; e uma bastante mais curta, de 3 a 5 segundos, que se torna na abreviatura. Cantou em sucessão o nome completo de cada um dos quatros filhos, e o dos outros visitantes que partilhavam connosco o chá. O tom de tais melodias naquele contexto era hipnotizante: sugeria um mundo povoado por criaturas fantásticas e forças desconhecidas, que espreitavam entre as frechas escuras e das sombras projectadas pelos nossos anfitriões.
Shidiap explicou-nos ainda que a música é exclusiva para cada membro da aldeia, e não existem duas músicas iguais; quando uma pessoa morre, a música morre com ela. Na aldeia, as pessoas tratam-se apenas pela versão mais curta do nome; mas quando vão trabalhar para os campos usam frequentemente as versões mais longas – estas melodias meio assobiadas viajam muito melhor do que a simples voz e revelam-se um instrumento de comunicação muito eficaz e adaptado à realidade local. Phidingstar sabia o nome completo pelo menos de 100 pessoas da aldeia, e a versão curta de muitas mais.
Ao longo da sua vida, Shidiap e Phidingstar nunca pensaram que houvesse nada de extraordinário com esta tradição da aldeia: era algo de natural, algo que sempre fora assim desde os tempos mais arcanos. Certamente nunca pensaram que um dia poderiam ser galardoados por algo do género. Mas recentemente, um dos ministros do governo indiano tomou conhecimento desta povoação e seus peculiares costumes, e colocou-a debaixo da sua alçada: chegou a fazer Shidiap voar até Deli para ser condecorada pelo próprio primeiro-ministro Modi, ao qual cantou o nome em assobios que lhe compusera pouco antes. Hoje compreendem o valor e unicidade desta tradição, partilhando-a e preservando-a com orgulho e muito amor.