Omotepe, Uma Ilha Vigiada Por Dois Vulcões

Uma história por Tânia Muxima

Muito antes da chegada dos europeus, Ometepe era habitada por povos indígenas, principalmente os Nahuas e os Chorotegas, oriundos da América Central que, mal chegaram, perceberam que havia um caráter especial neste lugar. Para eles, Ometepe não era apenas fértil, era sagrada. ‘Os nossos antepassados reconheceram de imediato que aquele não era um lugar comum, sentiam o calor do Vulcão Concepción debaixo dos pés e ouviam o silêncio profundo do Vulcão Maderas nas florestas, contavam que ali os espíritos ainda falavam.

 

Da chegada dos espanhóis à resistência da identidade indígena

Com o passar dos séculos, essa reverência pela ilha nunca se perdeu, apenas se transformou. Quando os espanhóis chegaram à Ilha, trouxeram consigo não só novas crenças, mas também uma forma diferente de ver a terra, como algo a conquistar, a cultivar e a possuir. Igrejas começaram a erguer-se onde antes existiam espaços sagrados indígenas e os nomes dos santos passaram a ouvir-se entre os vulcões. Ainda assim, por baixo dessa nova camada de história, a essência antiga da ilha continuava viva, silenciosa e resistente.  

Hoje, caminhar por Ometepe é sentir essa mescla de realidades. De manhã cedo, o dia começa devagar, ouve-se o cantar dos galos e o som das ondas suaves do Lago Nicarágua. Muitas famílias vivem ainda de forma simples, ligada à terra e aos ritmos naturais. Há quem trabalhe nos campos de banana, café e tabaco, quem cuide do gado, quem pesque nas águas tranquilas do lago. As mulheres varrem os pátios de terra batida, preparam tortilhas quentes sobre chapas de ferro e o cheiro do milho mistura-se com o fumo da lenha. As crianças essas, caminham longas distâncias para chegar à escola, muitas vezes descalças, rindo e brincando pelo caminho. E há sempre alguém sentado numa sombra, a ver o tempo passar.

Concepción e Maderas: os dois vulcões de Ometepe

Na Ilha de Ometepe, tudo gira em torno de dois gigantes, que definem não só a paisagem, mas também o espírito de quem lá vive: o Vulcão Concepción e o Vulcão Maderas. São eles que dão forma à ilha, dois vulcões ligados por um estreito istmo, desenhado no meio do Lago Nicarágua, como um símbolo de equilíbrio entre duas forças antagónicas.

O Vulcão Concepción é o mais imponente, mais visível e o mais vivo. A sua forma cónica ergue-se abruptamente a partir da terra, como se tivesse sido desenhada à mão. É um vulcão ativo. As suas encostas são áridas, expostas ao sol e ao vento. A subida é dura, quente e exigente. Ali, tudo é intensidade. É um vulcão que se impõe, que desafia, que testa os limites de quem o tenta subir. Já o Maderas é o oposto. Mais antigo, extinto, coberto por uma floresta densa e húmida, o Vulcão Maderas é um lugar especial. Enquanto o Concepción se mostra, o Maderas esconde-se. As nuvens envolvem-no frequentemente, como um véu, e lá dentro cresce uma selva rica, viva, quase intocada. É um vulcão de silêncio, de introspecção e de mistério. Subir este vulcão é entrar num ambiente onde a natureza domina completamente: lama, raízes, nevoeiro, sons invisíveis.  

No nosso alojamento, ao pequeno almoço, o Bajardo já nos espera. Há no nosso guia a tranquilidade de quem conhece o vulcão como quem conhece a própria casa, cada curva do trilho, cada raíz traiçoeira escondida na lama. É um homem moldado pela ilha, sorriso genuíno e com um olhar que parece antecipar o caminho antes mesmo de o pisarmos. Cumprimenta-nos e apresenta-se de uma forma muito simples, como se aquele encontro fosse apenas mais um dia de uma rotina antiga, repetida ao ritmo das estações do ano. Briefing feito, entramos no microbus que nos leva até à Finca Magdalena, onde começamos a nossa tão ansiada caminhada.  

Subir o Vulcão Maderas: lama, floresta e nevoeiro

A caminhada começa silenciosa, sente-se a curiosidade e o nervosismo do grupo, como se atravessássemos um limiar invisível. Paramos diante de um mapa desenhado à mão, afixado num placard de madeira já gasto pelo tempo. Bajardo explica-nos o trilho com o dedo e afirma que é precisamente ali que começa, de forma oficial, a nossa caminhada. A partir daquele ponto, entramos no coração do percurso. O nosso guia avança à frente, seguro, abrindo caminho por entre o verde denso, como se o próprio vulcão lhe contasse por onde ir. A cada passo o trilho transforma-se. As raízes surgem de todos os lados, entrelaçadas, expostas. Isso obriga-nos a abrandar, a escolher cada passo com cuidado, quase como se pedíssemos permissão ao vulcão para continuar. O ar muda também, ganha peso. Torna-se mais denso e carregado de neblina. Tudo à volta se silencia. Ouve-se o som distante da água a escorrer e o eco dos nossos próprios passos, como se caminhássemos dentro de algo maior do que nós. É uma sensação de estarmos a caminhar dentro da própria montanha. O grupo mantém-se firme e unido, motiva-se mutuamente, ao mesmo tempo que o caminho se torna mais duro. O trilho, que até então estava lá, transforma-se numa linha incerta de lama espessa e escorregadia. Cada passo exige atenção, uma batalha com um chão instável. A floresta fecha-se ainda mais sobre nós, a luz diminui, filtrada por camadas de vegetação e nuvens baixas que começam a envolver tudo. Bajardo não abranda, invocando que não há muito tempo de luz. Move-se com a naturalidade de quem pertence àquele lugar. Nós, limitamo-nos a seguir, mais lentos, sentindo o peso do corpo e da humidade a acumular-se nos sapatos, na roupa, na respiração. A lama cola-se e prende. Há momentos em que subir é mais um gesto de persistência do que de força. As mãos começam a procurar apoio nas raízes, nos troncos e na própria encosta, numa progressão quase instintiva. O silêncio torna-se cada vez maior tal como a concentração e o nevoeiro chega por completo como uma presença viva que nos envolve. A floresta como que se transforma num espaço suspenso e nós já quase não vemos o caminho à frente. Há uma estranheza bela nesse momento. Um isolamento que não assusta, mas que impõe respeito. Como se o vulcão medisse a nossa vontade de continuar. A curiosidade, se iremos ver o topo do vulcão ou não, aumenta a cada passo.  

Finalmente estamos lá em cima. A cratera não se revela com grandiosidade, mas com enigma. Escondida sob o nevoeiro, adivinha-se mais do que se vê, um vazio coberto de verde, húmido, onde a água repousa sem pressa. Ficamos ali, em silêncio também e aproveitamos para meter algo no estômago. Não há necessidade de palavras. Apenas a sensação de superação e a preocupação da descida.

Algumas horas depois, estamos em grupo, no alpendre da Finca, a brindar com Toñas e banana frita. Foi um dia do caraças e o grupo está ainda mais unido.  

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