Uma história por Filipa Chatillon
Somos um país de refugiados, disse-me Antigoni, sobre um mezze da charcutaria Miran. À nossa frente, enchidos arménios e queijos gregos, regados a golinhos de raki (aguardente).
O seu avô era turco grego-ortodoxo. Aquando da guerra greco-turca de 1922, ainda criança, fugiu da Turquia com a família, trazendo apenas a roupa que tinha no corpo. Vieram para Atenas, viver para uma casa abandonada com buracos no tecto, como tantos milhares como eles, aquando da troca de populações que se seguiu à derrota grega. Passado pouco tempo ele e a irmã ficaram órfãos e foram institucionalizados.
Miran, o arménio que dá nome à charcutaria, fugiu de Constantinopla (Istambul) pouco antes, na época da perseguição e genocídio arménios. Para além da roupa no corpo, trouxe a receita do pastrami vermelho que se vê na tábua. Originalmente feito de carne de camelo, prensada nos cascos do mesmo, é agora de vaca, prensada entre pedras e posta a secar com especiarias várias. Comida de pobre, de aproveitar tudo, elevada a iguaria, como quase tudo naquele prato. Os dolmades, rolinhos de folha de vide com arroz, o pão de dupla cozedura, para ser guardado muitos meses, até a aguardente, feita das cascas da uva que sobra depois de se fazer o vinho. A charcutaria, ainda na família Miran, vende produtos gregos, arménios e turcos, receitas próprias e de pequenos produtores. Há chouriços, pimentas e alhos pendurados por todo o tecto. Vitrines e prateleiras a rebentar e, no fundo da loja, quatro mesas de madeira para provar as iguarias. Foi aí que nos sentámos.
Lá fora, repetem-se lojas com balcões de madeira, grinaldas de frutos e legumes secos, caixas de ervas e azeitonas, latas várias. São quase todas de gerações de imigrantes do oriente próximo. É Evripidou, a Rua das Especiarias, que conta histórias de refugiados e vidas reconstruídas a pulso, que se provam e se cheiram nesses produtos.
Antes de lá chegarmos, havíamos feito uma paragem na Krinos. Ali estivera uma das primeiras farmácias de Atenas, fundada em 1855 por Stamatios Krinos, um grego de Constantinopla. Em 1923, o edifício foi comprado por Minas Kassimatis, também grego de Constantinopla, e transformado numa confeitaria. A sua família gere o negócio até hoje. Extremamente popular entre os refugiados gregos de Esmirna, que vinham matar saudades dos sabores de casa, a confeitaria não demorou muito a encantar também os atenienses. Kassimatis trouxe receitas da Ásia Menor e doces que os atenienses nunca tinham visto antes, como bolos xaroposos, pão de Esmirna, tartes, massas e alguns tipos de doces.
É até hoje poiso de avós e netos para comer loukoumades, pequenos dónutes fritos, regados com mel e canela. Nas paredes, vigiam fotografias do lugar, nas suas outras vidas. Há também um balcão para a rua onde gregos e turistas se abastecem de caixas destas bombas doces.
Minas Kassimatis era também conhecido pelo seu trabalho filantrópico. Apoiou ativamente fundações, asilos e lares de idosos. Entre dentadas, Antigoni conta-me que o seu avô viveu num destes asilos, quando perdeu os pais. Mais tarde, cansado da difícil vida na Grécia, mudou-se para Inglaterra. Lá, conheceu a avó, inglesa. Percebo agora melhor estes olhos e cabelos claros. Eventualmente, mudaram-se de volta a Atenas. Os pais, como ela, são já filhos deste país.
Começáramos a nossa caminhada por Atenas na praça Syntagma, o coração da cidade moderna. A Grécia como estado-nação surge após a guerra de independência com o Império Otomano, em 1830. Atenas é escolhida como a capital do novo país, num esforço consciente de reviver o esplendor da antiguidade e apagar a influência dos 400 anos de ocupação otomana. A história da Praça Syntagma começa então no início da década de 1830, quando a população da cidade era apenas de cerca de 7.000 habitantes e a área onde se situa a praça era um baldio. Esse foi o local escolhido pelo príncipe Otto da Baviera, de 17 anos, nomeado rei do novo país por imposição dos ingleses, franceses e russos, que haviam ajudado na guerra de independência. Era o ponto mais alto do centro de Atenas, oferecendo não só vista para a Acrópole, mas também para o Golfo Sarónico.
O palácio foi projetado pelo arquiteto bávaro Friedrich von Gärtner, com fundos doados pelo pai de Otto, o rei Luís I da Baviera. O novíssimo país nascia já endividado e não havia dinheiro para construir a residência do rei. A praça em frente ao novo palácio chamou-se então Praça do Palácio. Syntagma significa constituição e foi a 3 de setembro de 1843, que o nome da praça mudou para Praça da Constituição. Descontentes com a crescente crise económica, resultado dos empréstimos contraídos para a guerra, e com a imposição de uma monarquia absolutista, uma enorme multidão, juntamente com a guarnição militar da cidade, encheu a praça e exigiu que uma constituição fosse escrita, assinada e respeitada pelo rei. Otto cedeu.
Em 1863, Otto foi deposto e substituído por Jorge I, um príncipe dinamarquês que reunia maior consenso. Entretanto, a praça tornara-se pública. Em 1924 o palácio virou parlamento. Syntagma continuou a ser palco de eventos históricos importantes. O primeiro-ministro Georgios Papandreou falou às multidões extasiadas que celebravam a libertação da ocupação nazi a partir de uma varanda num edifício próximo. A guerra civil estalou ali, em 1944, quando a polícia, desde telhados circundantes, abriu fogo sobre manifestantes. Em 2011, no auge da crise da dívida, a praça foi transformada num enorme acampamento. Fizeram-se concertos ao vivo, exposições de arte e reuniões públicas, onde todos – desde professores universitários a trabalhadores desempregados – expressaram a sua opinião sobre a crise e o que devia ser feito. O nome não oficial deste local icónico poderia ser “Praça do Protesto” por todas as vezes que os gregos aqui se reuniram, e continuam a reunir, para tentar ser ouvidos.
Ao longo dos séculos XIX e XX, a Praça Syntagma e as ruas circundantes desempenharam também um papel importante na vida quotidiana dos atenienses, para além dos protestos. Foram local de encontro, o lugar favorito para passeios de domingo de namorados, bem como um espaço para apresentações musicais. Ao longo da Avenida Vasilissis Sofias distribuem-se mansões e palácios, mandados construir pela nata da sociedade ateniense da altura, muitos deles descendentes de gregos de Alexandria e da Ásia Menor, que queriam estar próximos do palácio.
Quase todos são, hoje, museus e edifícios governamentais ou embaixadas. Um dos mais famosos é o edifício comprado e ampliado pela família Benakis, em 1910. Antonis Benakis, descendente de uma das principais famílias da diáspora grega, nasceu em Alexandria em 1873. Foi aí que iniciou a sua carreira como colecionador. Em 1926, após se estabelecer definitivamente em Atenas, transforma a casa num museu, para albergar a sua extensa coleção de arte grega e islâmica. Em 1930 doa toda a colecção ao estado grego e o museu (e a fundação entretanto criada) continuou (e continua) a receber doações de peças de arte, livros, fotografias e filmes. Benakis manteve o seu envolvimento no enriquecimento e melhoria da organização dos acervos do museu e na garantia da sua segurança financeira até à sua morte, em 1954. Antonis e a sua família foram testemunhas e participantes activos da tradição de beneficência nacional que, desde os primeiros anos da independência grega, se manifestou claramente entre as comunidades gregas no estrangeiro.
Foi na esquina do Museu Benaki que entrámos no bairro Kolonaki. Kolonaki significa pequeno pilar. Deve o seu nome a um antigo pilar localizado no centro da praça que toda a gente conhece com o mesmo nome, mas que se chama Filikis Eterias. Originalmente, situava-se na pequena praça Dexameni, junto ao Reservatório do Aqueducto de Adriano, e os antigos atribuíam-lhe propriedades curativas, acreditando que podia prevenir doenças, epidemias e desastres naturais. Foi transferido para a praça Kolonaki em 1938. Esta praça central, que está actualmente escondida atrás das barreiras de construção da Linha 4 do Metro, e o bairro com o seu nome, são hoje os locais mais caros e requintados de Atenas, mas começaram a desenvolver-se por volta de 1860, a um ritmo lento. Até então, toda a zona era uma vasta pastagem, cheia de estábulos para pastores nas acolhedoras encostas da colina Licabetto, que a delimita, a norte. Na época de Otto, era um campo com vinhas e campos de cultivo.
As primeiras casas construídas eram modestas e humildes, de um ou dois andares, com pátios e galinheiros. A visão de um agricultor leiteiro a ordenhar a cabra no meio da rua era comum e não surpreendia ninguém. No que mais tarde se tornaria o bairro mais aristocrático de Atenas, o cheiro a leite de cabra e estrume impregnava o ar. Após 1880, a construção tornou-se mais densa e o tecido social mudou. A construção da Avenida Vasilissis Sofias desempenhou um papel significativo, a par com o estabelecimento da corte real, ministérios e outras organizações à sua volta. Os membros da corte, ministros, políticos, altos funcionários do governo, empresários e outros cidadãos abastados apressaram-se a instalar-se em Kolonaki, pois estava perto do centro de poder da época e do centro comercial em desenvolvimento simultâneo. Foi então que começou a construção de mansões luxuosas e residências grandiosas, desenhadas por arquitetos famosos da época. Assim, Kolonaki transformou-se gradualmente no centro heráldico de Atenas, tornando-se o ponto onde política, diplomacia, artes, cultura, ciência, passado, presente e futuro convergiam. No período pós-guerra, Kolonaki passou a ser identificado não só com a elite social e os atenienses financeiramente prósperos, mas também com intelectuais e artistas.
Parámos na Praça Dexami enquanto Antigoni me mostrava algumas fotos desta evolução do bairro. No início do século XX, gigantes da cultura grega como Georgios Souris, Kostas Varnalis, Ioannis Kondylakis e Nikos Kazantzakis, frequentavam os cafés aqui localizados. Kostas Varnalis escreveu nas suas memórias sobre Dexami: “Lá encontrei, juntamente com as árvores altas, o ar puro, o sol e a vista distante do Golfo Sarónico, que me intoxicava com a sua tranquilidade e brilho, a melhor versão de mim mesmo.” Naquele dia, do topo das escadas da pequena praça elevada, ladeadas pelo reservatório do aqueducto romano, a entrada de um cinema ao ar livre, um pequeno parque infantil e uma grande esplanada, com o bairro chique e as suas caríssimas lojas de design aos nossos pés e a Acrópole ao fundo, ao nível dos olhos, parecia difícil acreditar que 100 anos antes, estaríamos num pasto de ovelhas, com terra debaixo dos sapatos.
Pastores, aristocracia, políticos, empresários, escritores, intelectuais, artistas plásticos e agora empreendedores, designers e marcas de alta costura. Nos cafés da pedonal e sombreada Rua Tsakalof ainda se percebe um certo ar característico de “ver e ser visto”, nos grupos de senhoras de meia-idade, com cabelos armados e batons vermelhos e nos conjuntos de homens de fato, com os eternos café e cigarro em cada mão. Nas ruas circundantes, o turismo e a gentrificação, em contraste com alguma vontade de manter a alma boémia e intelectual, continuam a baralhar as cartas daqueles que populam este bairro particular.
Seguindo pela Rua Tsakalof, passando a igreja de São Nicolau (Agios Nikolaus), estamos já a entrar em Neapoli. Localizada entre as colinas de Lycabetto e Strefi, Neapoli desenvolveu-se após 1850, por construtores, estucadores e artesãos de mármore que migraram para Atenas à procura de uma vida melhor. Kolonaki estava a ser desenvolvido e precisava desses trabalhadores. A presença próxima da Universidade de Atenas também potenciou a necessidade de construção, incluindo as famosas instituições de ensino da cidade, casas para estudantes provenientes das províncias e dos grandes centros da diáspora grega. O terreno a nordeste da cidade velha estava então fora da área de zoneamento sendo, consequentemente, mais barato e estava próximo de todas estas zonas. O novo distrito rapidamente adquiriu uma forte identidade intelectual e tornou-se lar de muitos grandes nomes da intelectualidade grega.
Enquanto subíamos as ruas empinadas, alternava a vista entre bonitas casas neoclássicas e edifícios de apartamentos populares. Depois das várias guerras e crises que assolaram o país, o grande crescimento demográfico da cidade nos anos 1950 e 60 gerou uma crise de habitação. Muitos dos terrenos e casas unifamiliares foram comprados ou trocados pela possibilidade de grandes apartamentos nos prédios construídos nessa altura, para aumentar o parque habitacional. Na rua Dimaki, uma casa simples, solitária, sobrevive entre edifícios altos, testemunha das diferenças sociais que estão na origem dos dois bairros e pequena dica para o bairro onde estávamos prestes a entrar. Nas cidades, como nos países, as fronteiras não são estáticas e contam estórias que reflectem a história da sua evolução.
Caminhando para nordeste, depois de passarmos o enorme edifício da Alliance Francaise, Antigoni instou-me a que prestasse atenção às paredes dos edifícios. Num único olhar, cartazes anarquistas, mais grades nas lojas, várias pequenas livrarias, jornais comunistas e revolucionários pendurados à porta de tabacarias, dezenas de graffitis. Entráramos em Exarcheia, um triângulo urbano de um quilómetro quadrado no centro da cidade, frequentemente referido como o bairro anarquista de Atenas. Uma zona vibrante, povoada por rebeldes de todos os tipos: estudantes, artistas, migrantes e intelectuais.
A reputação de Exarcheia como bastião anarquista tem raízes históricas no comunismo. Em 1941, foi criado ali a Frente de Libertação Nacional (E.A.M. – Ethnikon Apeleftherikon Métopon), na Rua Mavromichalis. O Exército Popular de Libertação da Grécia (E.L.A.S. – Ellinikos Laikos Apeleftherotikos Stratos) foi fundado em 1942 por iniciativa do Partido Comunista da Grécia, tornando-se uma das forças mais ativas na luta contra a ocupação nazi e fascista. Foi também o local onde ocorreu a primeira insurgência significativa contra a ditadura dos Coronéis, em novembro de 1973, quando os estudantes do Politécnico de Atenas declararam uma greve nacional e ocuparam os escritórios da instituição durante quatro dias, antes da Junta esmagar a revolta de forma sangrenta.
Sentada num café a beber um freddo expresso, ouvi as histórias do bairro a que Antigoni chama casa. De forma clara e desassombrada, contou-me sobre o poder e a beleza da organização comunitária que ainda se sente, apesar da pressão imobiliária e turística, mas também as contradições e o perigo desse fervilhar revolucionário que rapidamente estala em violência. Durante muitos anos, este foi um bairro onde a polícia não entrava, porque podia não sair com vida. Hoje em dia, vêm-se esquinas com polícia de intervenção de piquete, não se sabe bem se à espera de provocação ou para efectivamente garantir a segurança. Depende a quem se pergunte. Por todo o lado há murais que falam das preocupações políticas e económicas prevalentes na Grécia atualmente: violência policial, desemprego juvenil, questões migratórias, sem-abrigo e um sentimento geral de frustração com a ineficiência e corrupção nas instituições
Na esquina da Via Mesologgiu com a Via Tzavella, parámos num memorial a um evento que marcou e definiu profundamente a área. O trágico assassinato, pela polícia, de Alexis Grigoropoulos, de 15 anos, em 2008, numa manifestação durante a crise da dívida. A morte do jovem foi um rastilho à ação para todo o bairro e o resto de Atenas, resultando nos maiores motins na Grécia desde a década de 1970.
Ao longo dos anos, Exarcheia tornou-se um refúgio para todo o tipo de experiências sociais. Várias organizações socialistas, antifascistas e anarquistas estão sediadas no bairro. Durante a crise de refugiados de meados da década de 2010, coletivos anarquistas mobilizaram-se imediatamente, ocupando várias casas abandonadas para oferecer hospitalidade, assente nos pilares da solidariedade e da auto-organização. Muitas foram desocupadas à força entretanto, principalmente durante as restrições de 2020 e 2021, associadas à pandemia de Covid-19. Outro exemplo da capacidade de organização e força comunitária é o parque de Navarinou. Em 2009, um grupo de habitantes locais, pediu que os 2000m2 de um terreno público que fora um parque de estacionamento fosse transformado num espaço verde e não vendido para apartamentos. Não tendo obtido resposta da municipalidade, ocuparam-no, impedindo o acesso de máquinas e da polícia. Quebraram depois o asfalto com brocas e cortadores, trouxeram terra e plantaram flores e árvores. A ocupação seguiu nos dias seguintes, com os residentes fazendo turnos para nunca abandonar o lugar. Eventualmente, foi-lhes cedido o terreno. Desde então, o parque é gerido por um coletivo aberto, e evoluiu para um centro comunitário mais do que apenas um parque. O terreno outrora árido está denso de vegetação, com uma pequena agrofloresta e uma horta comunitária. O objetivo da horta comunitária é também formativo, para mostrar como cultivar alimentos, reproduzi-los e recolher sementes. Há baloiços para crianças, servem refeições para sem-abrigo, fazem exibições de filmes e outros eventos. Tudo construído e organizado pelo colectivo. Na empena de um edifício adjacente pintaram um mural com uma frase que me emocionou: “You did your best to bury me, but you forgot that I was a seed“.
Saímos de Exarcheia para a Rua da Universidade (Panepistimiou), passando pelo Politécnico e relembrando que a história do bairro é, também, a história das revoltas estudantis, de 73 até hoje. Cruzando a famosa trilogia de edifícios neoclássicos imponentes, a Biblioteca Nacional, a Universidade de Atenas e a Academia, relembrámos também a visão de Otto. Pretendia renovar o centro da cidade de Atenas com edifícios majestosos, ao mesmo tempo que construía uma ponte para o passado distante, uma ligação entre a capital moderna de Atenas e a Atenas da antiguidade. Como tantos dos edifícios dessa altura, também estes foram desenhados por norte-europeus obcecados com a Grécia Antiga (os Filelénicos) e financiados por empresários e comerciantes gregos de todo o mundo, numa tentativa de glorificar uma determinada parte da história, e apagar séculos de outras. A construção da Trilogia de Atenas foi concluída várias décadas após a sua concepção, por volta de 1890 e estava rodeada de espaços vazios. A visão de Otto carecia de base monetária e, entretanto, a história tomou o seu curso. Hoje, estamos em pleno centro da cidade moderna, no meio do trânsito compacto e rodeados de edifícios de cimento e metal.
A cinco minutos de Panepistimiou, chegámos então à Krinos e daí, atravessando o buliçoso mercado Varvakios, à Rua Evripidou, na esquina da charcutaria Miran. Estávamos a entrar em Psiri.
Perto da colina da Acrópole e da antiga ágora ateniense, Psiri é um dos bairros mais antigos da cidade. Faz parte do “Triângulo Histórico” que foi o coração de Atenas na época da Grécia e Roma Antigas, mas assumiu a sua forma atual depois da revolução grega de independência contra os otomanos em 1821. A praça central Plateia Iroon foi traçada em 1850.
No final do século XIX, tornou-se o ponto de encontro da máfia local, os koutsavakides. Enquanto caminhávamos, Antigoni chamou-me a atenção para um pequeno desenho numa parede amarela, no meio de muitos outros graffitis. Era a imagem característica destes criminosos. Um homem magro, de bigodes compridos em forma de guiador, vestido com uma camisa branca, calças pretas e um casaco, também preto, vestido apenas com uma manga, tornando-o mais fácil de tirar numa luta. Era a sua imagem de marca.
Após 1900, a área foi limpa e os gangues expulsos pelo chefe da polícia de Atenas, Bairaktaris. Com a segurança, instalaram-se pequenas empresas e oficinas e a área prosperou durante a primeira metade do século XX. As gerações mais velhas ainda recordam as oficinas artesanais, onde curtidores de couro, metalúrgicos e outros artesãos produziam produtos à mão. Décadas depois, área foi gradualmente declinando à medida que os residentes se mudavam para bairros mais calmos de Atenas. Nas décadas de 1980 e 1990, Psiri ganhou de novo a reputação de bairro degradado e inseguro.
Chegado o século XXI, com o aumento do turismo e a gentrificação, deu-se uma revitalização da zona, que é hoje uma das mais concorridas por turistas e locais para sair à noite. As tradicionais casas de café e tabernas, outrora preferidas por uma mistura eclética de clientes — desde monarcas e escritores a trabalhadores, refugiados da Ásia Menor e pequenos gangues — foram agora substituídas por bares hipster, cafés estudantis e lojas de artesanato amontoadas ao longo das cinco ruas estreitas que irradiam da praça Iroon. Mas, durante as horas mais calmas do dia e em ruas como Pallados ou Miaouli, ainda nos deparamos com algumas oficinas familiares de calçado e couros, ou pequenos negócios de trabalho do metal e muitas das lojas mais modernas bebem deste espírito artístico e artesanal.
Psiri é então um dos bairros que mais testemunhou as várias transformações de Atenas e ocupa um lugar especial no coração coletivo dos atenienses. Segundo ouvi de diferentes pessoas ao longo dos anos, o sentido de comunidade, o talento artístico, os recantos escondidos e a camaradagem noturna convergem para formar um bairro que parece simultaneamente familiar e cheio de surpresas. É uma área que se reinventou inúmeras vezes, mas que manteve a sua essência ateniense distinta, se soubermos onde a procurar.
Chegámos a Monastiraki vindas das ruas estreitas de Psiri. De repente, aquela praça aberta que parece um lego de épocas da história. Dei-me conta, nesse momento, que vínhamos caminhando quase como se recuando no tempo, do nascimento da Atenas moderna até aos testemunhos da antiguidade, e todos esses séculos convergiam naquela praça. Alí está a modernidade, na estação de metro onde desembocam milhares de pessoas de todo o mundo. Ali está a Biblioteca de Adriano, contando histórias do Império Romano, ao lado da mesquita Tzistarakis, remanescente de 1759 e do Império otomano. Ali está, também, o que resta do complexo monástico Bizantino que deu o nome ao lugar (Monastiraki), a pequena basílica Pantanassa, do século X. Dali partem as ruas que populavam a antiga ágora ateniense. E dali se vê o Parthenon, vigilante no topo da Acrópole, coroando tudo isso.
“Temos uma relação estranha com a nossa história”, disse-me Antigoni. “Escolhemos ser mais conhecidos pelo que fomos há mais de 3000 anos, que por tudo o que aconteceu entretanto e, no entanto, é tudo o que aconteceu entretanto que nos tornou quem somos hoje.” Como escreveu Roderick Beaton, no seu livro Greece: Biography of a Modern Nation “A história de uma nação deve também ser a história de como um povo pensou sobre si mesmo e o mundo, e o seu lugar nesse mundo”.
Atenas, ao tornar-se a capital de uma nação simultaneamente nova e milenar, foi pressionada a responder às necessidades avassaladoras de cada época: de pequeno povoado remoto durante o período otomano a aspirante a capital neoclássica grandiosa, da Catástrofe da Ásia Menor à Segunda Guerra Mundial, seguida de uma sangrenta Guerra Civil. Foi forçada a acumular muito: pessoas, diferentes esperanças e visões, trabalho, sofrimento e criação, revelando assim novas cores à medida que moldava a sua nova identidade e, consequentemente, perdia elementos da sua história e património. Os bairros de Atenas reflectem todas estas acumulações e contradições, mostrando uma cidade muito mais interessante que aquela vista apenas pela lente da Grécia Antiga.