Uma história por Filipa Chatillon
Está uma mulher sentada numa rede de dormir rosa escuro. As suas mãos tecem, num movimento circular, o que virá a ser uma bolsa tradicional, uma mochila. A sua face está coberta por uma pasta escura, feita do interior de um pequeno cacto. É suposto funcionar como protector solar, mas a sua pele vê-se dura, enrugada pelo sol do deserto. Tece pausadamente, imperturbável, transmitindo a história da sua família, o quotidiano e os símbolos sagrados nos padrões do tecido. Assim ensinou Wale Keru, a aranha, que depositou a sua arte nas primeiras mulheres Wayuu.
Estou no seu território, La Guajira, no extremo nordeste da Colômbia. Uma península isolada, partilhada a sudeste com a Venezuela. Como departamento, abarca, na costa, parte da região do Caribe, estendendo-se já pelo Atlântico que chega revolto a Punta Gallinas, o ponto mais a norte de toda a América do Sul. No interior, a fronteira com a Venezuela delimita oficialmente o departamento colombiano, mas para os Wayuu, o povo indígena da região e o mais numeroso do país, essa fronteira não existe. O seu território é anterior à colonização e à posterior criação dos países.
Palavras murmuradas acompanham o movimento das mãos, contando o mundo desde o início dos tempos. Num canto sussurrado, aquela mulher narra a escuridão, que era Tudo. Desta surgiu Arraalito, a Luz, seguido de Mma, a Terra e Paalá, a Água. Paalá pariu quatro ventos gémeos, Joutai, e a chuva, Juuya, e os cinco partiram pelo espaço. Ao conhecer Mma, Juuya apaixonou-se, fertilizando então a terra. Desta união vieram as plantas, a primeira geração de seres terrestres. As plantas eram seres grandes, móveis e sábios que percorreram o território e o encheram de verde. Cumprida a sua missão, fixaram-se e deram origem a toda a flora. A segunda geração foi a dos animais, que surgiram da alma das sábias montanhas – no que é hoje a Serra da Macuira, na ponta oeste da península – e povoaram a terra. Os Wayuu como humanos são a terceira geração. Foram criados pela divindade Malweia a partir do barro e infundidos com a seiva das plantas e o coração dos animais. Vindos da luz, filhos da terra e da chuva, sobrinhos-netos do vento, feitos das plantas e dos animais. A cosmogonia deste povo explica o seu amor ao território, que os define, e a todos os seres que o habitam, que consideram não só família, mas também ascendência.
Eu não sabia nada desta história, a primeira vez que visitei La Guajira. Havia lido sobre os seus áridos desertos, paisagens de horizonte infinito, baías verdes vazias, e sentido o apelo a adormecer embalada numa rede de dormir, sob um céu imperturbado. Não conhecendo desertos costeiros, não queria acreditar no azul-turquesa espelhado que se seguiu às três horas de terra gretada, de amarelos e castanhos, de cactos enormes e árvores cinzentas, dobradas pelo vento e que apenas davam sinal de vida em esparsas folhas esverdeadas a despontar das extremidades de ramos finos. Ainda hoje, dez anos e vinte regressos depois, duvido sempre se o reflexo do sol no mar será mais uma miragem, à medida que nos aproximamos de uma das baías, após horas de horizonte amarelo.
Nessa altura, a informação era escassa e difícil de encontrar. Os guias turísticos falavam apenas das paisagens e davam informações gerais sobre os Wayuu, quase como se estes fossem também paisagem. Já no terreno, o condutor do jipe explicou-nos que os Wayuu estão organizados por clãs matrilineares. Existem cerca de 30, cada um representado pelo seu animal totémico e ocupando um território específico. As comunidades, que são normalmente aparentadas, organizam-se em rancherias, compostas por cinco ou seis casas. Cada casa tem, tipicamente, um ou dois quartos para dormir e guardar objectos. As mais tradicionais são feitas de adobe, madeira e palha, com telhado de yotojoro, o coração do cacto, seco. No terreno circundante existe sempre uma enramada, um telheiro feito com madeira e yotojoro, onde se penduram chinchorros (redes de dormir) e que serve para todas as actividades diárias: cozinhar, receber, tecer e dormir a sesta. Não há água canalizada e raramente têm electricidade, que vem de geradores e/ou pequenos painéis solares.
Relembro dessa primeira visita o sentimento de isolamento absoluto, a dureza e a incrível beleza daquela terra inóspita. A maneira como a paisagem se tornava cada vez mais gretada, os horizontes mais longínquos, à medida que avançávamos nas pistas desérticas, península acima, pela Baixa, Média e Alta Guajira. Recordo também a estranheza da falta de contacto, quase rudeza, dos Wayuu com que nos cruzámos e até dos que nos acolheram nas suas rancherias. Seria apenas uma consequência das condições geográficas? Um passar da dureza do território para a dureza das suas gentes?
Tenho respondido a estas e muitas outras perguntas com a pesquisa e a vivência ao longo destes regressos, com conversas com amigos colombianos e com a FUCAI, uma ONG que trabalha com comunidades indígenas para garantir o respeito e a proteção dos seus direitos. Focam-se em soluções inovadoras e sustentáveis para abordar os desafios únicos que estas comunidades enfrentam, incluindo a conservação do meio ambiente, o acesso à água potável, a educação, a geração de rendimentos sustentáveis, o fortalecimento dos governos comunitários e a soberania alimentar.
A Alta Guajira não possui águas subterrâneas. A água doce que existe, provém apenas da acumulação da água da chuva, que cai nos meses de Maio, Outubro e Novembro e enche poços e charcas, e do alagar de leitos de rios que se encontram na Média Guajira, depois das chuvas. Esta foi sempre uma zona desértica e os Wayuu souberam viver com as estações e trabalhar com o que a terra lhes ia dando. Mas, as alterações climáticas e a exploração da mina de carvão Cerrejón (uma das maiores do mundo), com o desvio de rios e riachos e a poluição de fontes de água, provocaram um extremar da desertificação e reduziram a já pouca fertilidade dos solos. Entre 2011 e 2016 praticamente não choveu. Os poços secaram, os animais morreram quase todos e as poucas plantas nativas da zona, arbustos, milho, feijão e alguns tubérculos, deixaram de crescer. A desnutrição infantil, que era já um problema, atingiu níveis gravíssimos com a mortalidade a disparar em flecha. Os camiões-cisterna, que distribuem água potável, eram (e continuam) insuficientes e o abandono a que o governo central vota esta região tornou-se gritante. Nos últimos anos, a chuva voltou, às vezes em enxurradas que têm o efeito oposto ao pretendido, ensopando o solo, destruindo caminhos já de si precários, isolando ainda mais as populações. Além disso, muitos dos poços e charcas estão contaminados e os danos causados pela seca extrema no solo e no modo de subsistir estão longe de ser recuperados.
A aparente rudeza dos Wayuu tem razões históricas, além das territoriais. Aquando da chegada dos espanhóis, no século XVI, os Wayuu ocupavam já esta área como povo seminómada, dedicando-se essencialmente à pesca, caça, recolecção e tecelagem. Apesar de várias disputas, com distintos graus de intensidade, a resistência indígena e a dureza do terreno permitiram que esta zona nunca fosse conquistada. O conhecimento do território e a sua adaptação às difíceis condições do deserto fizeram dos Wayuu parceiros nas trocas comerciais das rotas comerciais que chegavam das ilhas caribenhas holandesas e do que é agora a Venezuela, permitindo a circulação das mercadorias para o resto do país. Tinham também contacto e trocas comerciais com os piratas ingleses e holandeses que percorriam toda a costa. Deste contacto com os europeus absorveram tradições que não tinham anteriormente, como a pastorícia, a deslocação a cavalo e o comércio de bens, e que, hoje em dia, estão enraizados como parte da cultura Wayuu. A conquista deu-se já no final do século XIX, com as lutas pela independência dos espanhóis e a evangelização. Simón Bolívar, “o libertador”, não admitia territórios independentes na sua Gran Colombia (actuais Colômbia, Venezuela e Equador) e quis incorporar todas as populações indígenas, que considerava “mais ignorantes que a raça vil dos espanhóis”, retirando-lhes a autonomia política e social que, a muito custo, tinham conseguido manter com estes. Quando a Venezuela se separou da Colômbia, surgiu uma fronteira que para os Wayuu nunca existiu, pelo que o conceito de contrabando que perdura até hoje é, na sua visão, um embuste. Esta facilidade em transportar mercadorias nos diferentes sentidos, o contacto directo com as rotas do Caribe e o isolamento do território continuaram a ser aproveitados para actividades comerciais ao longo dos anos, sendo das maiores fontes de riqueza. No entanto, teve efeitos devastadores nas comunidades quando, na época mais dura do narcotráfico, nas décadas de 1960 a 1990, foi tomada pelos grandes senhores da droga e por grupos paramilitares, às vezes com a conivência dos locais, muitas vezes apenas pela subjugação violenta. Muita da fama de “fora da lei” desta região vem desta altura. Os esforços evangelizadores, com a criação de internatos e a tentativa de apagamento de tradições ancestrais disfarçada de ajuda humanitária, são também fonte de conflitos morais e desconfiança.
A tecelagem é um rito de passagem, ensinado de mãe para filha quando estas menstruam pela primeira vez. O acto de tecer e os seus produtos são características fundamentais dos Wayuu. As mochilas – bolsas de tiracolo cilíndricas – de padrões mais intrincados podem levar semanas. As cores e padrões representam, tradicionalmente, símbolos da cosmogonia, contando muitas vezes uma história, a quem souber ler a geometria sagrada. Fazer um chinchorro pode demorar vários meses e este representa muito mais que apenas uma cama suspensa. É encarado também como um ventre simbólico, que acolhe e protege em todas as alturas da vida. Os Wayuu nunca dormem em camas fixas, dormem nos seus chinchorros, mesmo dentro de casa. Depois do casamento, tecem-se chinchorros maiores, de casal, onde os filhos são concebidos. É nos chinchorros que as mulheres dão à luz, é num chinchorro que o bebé é colocado mal nasce e é também envolvidos neles que todos vão a enterrar.
Respeitando a soberania territorial e promovendo o turismo comunitário, os alojamentos destas viagens são todos de famílias Wayuu. São quartos em pequenas cabanas, muito básicos, ou, adoptando os seus costumes, dormindo em chinchorros pendurados nas enramadas. É num chinchorro de frente para o mar que acordo sempre, em Cabo de La Vela. A aldeia, com o nome do cabo próximo, era originalmente apenas uma comunidade piscatória Wayuu, mas tornou-se um destino popular para kitesurf e praia. Consiste numa dúzia de casas em ambos os lados de uma estrada de terra que corre paralela ao mar. O contorno do terreno forma uma baía azul, com o cabo no seu fim. Faço sempre questão de ficar na Rancheria Utta, no extremo da vila, afastada da confusão. É um lugar criado e gerido por um clã local, com preocupações e cuidados ambientais raros na região. Ao longo dos anos, tenho testemunhado também o investimento em projectos de educação e divulgação da cultura Wayuu, dentro da comunidade e para partilha com os turistas que atravessam a região. Nota-se a preocupação em resolver equívocos gerados pela passagem rápida pelo território, aproveitando as praias e paisagens, mas passando por cima da história e costumes locais.
Cabo de La Vela, Jepira, em Wayuunaki, é também uma região sagrada da Alta Guajira. O vento, forte e sempre presente por todo o território, transporta os sonhos através dos quais os mortos e os seres mais antigos falam com as suas famílias mediante símbolos e animais, aconselhando-as nos seus dilemas. Os Wayuu acreditam que esta ligação ao mundo dos sonhos ‒ Lapu ‒ é mais forte nesta região. Foi aqui que me contaram um sonho prenhe de significado: Kuréchi, o sapo da segunda geração de seres, apareceu imóvel na areia, mudo, com a garganta ressequida, incapaz de emitir o canto que chama a chuva. Kuréchi é um mensageiro de Juuya e o seu silêncio é um grito de alerta, para quem sabe interpretar a simbologia. Juuya está a ser desviada do seu caminho natural e Mma, a terra, sofrerá as consequências.
Dessa primeira visita, recordo a apreensão por ir dormir assim, sem paredes, protegida apenas por um telhado de palha e suspensa na rede. Mas a sensação é mesmo a de um casulo e o corpo rapidamente se acomoda à posição. Em todos os regressos, adormeço tranquilamente com o sussurro da ondulação e o odor a maresia, depois de ver a Via Láctea e contar estrelas cadentes. De manhã, deixo-me acordar naturalmente, à medida que o sol desponta. Quase sempre, abro um olho e vejo o céu ficar cor-de-rosa. Espreguiço-me ainda embalada na rede e caminho os dez passos até à beira-mar. A luz vai passando a dourada e recorta as silhuetas a contraluz. Os pescadores já andam na faina, vê-se os barcos no horizonte. Pelicanos passam a rasar a água, que é um espelho de metal líquido a essa hora. Quando somos vários, espalhamo-nos pela praia, quase sempre em silêncio, enquanto o sol vai subindo, ganhando em calor o que vai perdendo em cor. Às vezes, tal como os Wayuu, perguntamo-nos o que sonhámos. Sente-se uma calma e uma reverência natural aos elementos que nos envolvem ali e que têm o seu expoente máximo nesses amanheceres pintados.
Cheguei a Camarones, na Baixa Guajira, por imposição do clima imprevisível, que já se vai tornando habitual. Foi um acaso feliz. Num final de Novembro particularmente chuvoso, uns dias antes da data em que deveria estar a partir com um grupo para Punta Gallinas, soube pelos meus parceiros locais que as pistas estavam intransitáveis. Alagadas pela chuva, ainda não tinham secado o suficiente para permitir a passagem dos jipes. Em busca de um plano alternativo, acabámos maravilhados num bote artesanal, no Santuário de Flora e Fauna Los Flamencos.
Sentados em fila indiana no bote estreito, deixámo-nos transportar por Wilmar, que enterrava e deslizava um longo pau na areia fazendo mover o barco para o meio da lagoa, em direcção aos manguezais. Contou-nos da sua vida dura como pescador e como a formação de guia lhe permitia agora um dia-a-dia mais diversificado e um extra de ingressos. Enquanto dirigia, afastando-se dos bancos de areia e das redes de pesca, ia-nos apontando as aves: fragatas, pelicanos, garças, colhereiros, águias, íbis negros e rosas. Uma pequena amostra das 37 espécies de aves endémicas que existem no Santuário. Quando nos aproximámos dos manguezais, dezenas de cormorões pareciam vampiros muito direitos em cima dos troncos, sombras de frente para luz. Perto das margens, colhereiros rosa eram explosões de cor no verde da água e dos ramos. No meio da lagoa, quando já tínhamos perdido a esperança, começámos a avistar uma mancha rosa. Ali estavam os flamingos americanos que dão nome à reserva natural. Eram dezenas, todos voltados para o mesmo lado, de pata levantada e pescoço baixo, o bico na água, a comer. Chegam a ser centenas. A ausência de motor permitiu-nos aproximar silenciosamente e ali ficámos a contemplar. Quando um deles decidia mudar de direcção e começar a caminhar, todos o seguiam, numa dança coordenada de patas finas e pescoços longos. De repente, dois levantaram as asas, seguidos por quase todos e a dança passou a voo conjunto. Com as asas abertas, parecem duplicar de tamanho, o rosa e negro das asas a brilhar ao sol e nós ali, maravilhados. No regresso a terra, com o vento a favor, Wilmar levantou um mastro rudimentar e prendeu uma pequena vela de plástico azul. Deslizámos então mais rapidamente, agradecendo o fresco da brisa na pele.
Nesse dia, chegámos a meio da manhã. A luz era vertical e picava, mas nada parecia importar enquanto testemunhávamos tamanha beleza. Um ano depois voltei, e dessa vez saímos ao raiar do sol para um passeio a pé pelas margens da Laguna Navio Quebrado, antes do passeio de barco. Não era a temporada dos flamingos, que são migratórios, mas José Luís, o nosso guia nesse dia, achava que poderíamos encontrar alguns indivíduos que tinham ficado. Era também uma boa oportunidade para ver com mais calma outras aves, usando a grande lente que carregou orgulhoso. Wayuu da rancheria de Loma Fresca, vizinha do nosso alojamento em Camarones e onde tínhamos passado a tarde anterior, José Luís tinha feito já várias formações em aviturismo e partilhava de forma apaixonada o seu amor às aves, ao Santuário e às oportunidades que esse tipo de turismo podiam trazer às comunidades. “É uma actividade que respeita o território, é saudável, estimula a conservação dos ecossistemas e dá-nos alternativas económicas aos Wayuu, que respeitam as nossas tradições e cultura”.
Caminhando no lusco-fusco entre casas e cactos chegámos às margens protegidas da lagoa onde os botes não chegam. O verde da vegetação aquática começava a brilhar com o sol baixo, dourado, a água era um espelho, centenas de pequenos pássaros cortavam o silêncio com os seus piares, acumulando-se nas várias poças. José Luís mostrou-nos primeiro os colhereiros rosa. Através da lente podíamos perceber os diferentes tons, mais claro no dorso, rosa-forte nas asas, com uma lista quase vermelha no centro. As garças, de tamanhos vários, observavam-nos, muito quietas, no meio da água, ou caçavam, de perna no ar e pescoço estendido como perdigueiros do céu. Após alguns minutos e mudando de lugar, avistámos cinco flamingos. Não seria preciso, para fazer valer a pena a madrugada, mas foi mais uma bênção feliz. O flamingo cor-de-rosa, tokoro em Wayuunaiki, desempenha um papel crucial neste ecossistema e tem também um lugar de destaque nas lendas Wayuu. Diz-se que Kasirawi, um espírito guardião, cuida destas aves, que são consideradas sagradas por representarem pureza e beleza natural. Além disso, existem crenças que relacionam o seu aparecimento como presságios para os pescadores antes de sair para o mar ou como importantes indicadores ambientais. Tomando o avistamento como bom presságio, seguimos para o passeio de barco.
Na tarde anterior estivéramos com a família de José Luís na rancheria, a conversar sobre as tradições e cultura Wayuu. O tio materno, a figura masculina mais importante de uma família, explicou-nos como se organizam os clãs, a importância do território e da palavra, a cosmogonia e o significado da música dos tambores que acompanha a dança tradicional, a Yonna, feita em várias ocasiões importantes da vida das comunidades. Pudemos depois ver uma demonstração, enquanto os tambores soavam fortes. O vermelho, intenso e vibrante é o protagonista desta dança. A mulher usa um vestido típico vermelho com um véu da mesma cor, que abre em asa sobre a cabeça, enquanto o homem usa um ‘wayuuco’ (uma espécie de tapa-rabos tradicional) como vestuário. “O sangue é sagrado para nós, por isso vestimos vermelho quando dançamos, como símbolo do nosso sentido de pertença ao nosso sangue e do valor que ele tem para nós”, explicaram-nos. Os passos dados nesta dança representam animais e simulam uma espécie de conquista que exalta as mulheres, como símbolo da mãe natureza. “As mulheres dançam para a frente, mostrando o seu poder, empreendedorismo e sabedoria; o homem dança caminhando sempre para trás, mostrando respeito por ela”. Batendo com os pés no chão, de forma ágil e leve ao ritmo dos batuques, vão andando em círculos, ela sempre a perseguir, ele sempre a recuar. As razões para a dança são várias. “Dançamos quando é a saída de uma Majayut (uma rapariga depois da sua primeira menstruação, que sai do encerro onde fica recluída quando esta aparece), quando estamos felizes, quando há um evento importante, por receber uma visita e também quando há uma revelação de sonhos”
Um dos temas mais controversos da cultura Wayuu, a par com a poligamia masculina, é justamente este encerro. A rapariga fica confinada a uma divisão da casa, ou uma cabana exterior só para ela, onde só pode comunicar com a mãe e as avós, durante seis meses a um ano. Deve estar deitada no seu chinchorro, fazer pouco movimento e não pode comer determinados alimentos. As mulheres mais velhas passam-lhe os seus conhecimentos e tradições, nomeadamente através da tecelagem. Desta maneira, acreditam, valorizam e respeitam o seu papel como mulheres na comunidade e reforçam a conexão com a terra e a natureza, enquanto aprendem sobre história, música, dança, artesanato, religião e todos os aspectos importantes da sua cultura. Além disso, mantêm-se protegidas de ameaças externas, como violência ou sequestro, comuns na região. Como mulheres independentes, herdeiras da luta pela igualdade de direitos, é-nos muito difícil entender e aceitar estas tradições, mas estas são defendidas até por muitas mulheres Wayuu que já tiveram a oportunidade de conhecer outras tradições, estudar e sair das suas comunidades, voltando depois. Recordo que a responsável pela Enramada Cultural da Rancheria Utta afirmava que esse costume tinha muitos aspectos positivos, que permitia esta transmissão das tradições de forma calma e uma passagem tranquila à idade adulta. Que em muitas comunidades o encerro já passara a apenas um par de meses e que se iam adaptando, sem perder de vista a importância da preservação da cultura indígena. Quando a questionámos sobre a poligamia, contou-nos que muitas mulheres já não a aceitavam, que ela mesma havia decidido com o seu marido que não tivesse outras esposas e que esse era o caso de muitas outras famílias.
A permeabilidade entre os costumes tradicionais e a modernidade gera sempre tensões e conflitos. Entre o manter da identidade e rituais que podem parecer bárbaros aos olhos do presente histórico e de sociedades totalmente distintas, há uma linha que se desloca em avanços e recuos, mas a quem cabe decidir o que é válido e o que não é? Os Wayuu lutam para encontrar o seu lugar, jogando nesse equilíbrio difícil. Muitos foram para as cidades em busca de vidas menos duras e escondem, por vergonha, as suas origens. Outros mantêm-se aguerridos a um estilo de vida e hábitos incompatíveis com a sobrevivência em condições dignas, num ambiente fortemente impactado pelas alterações climáticas. Mas também há várias gerações mais novas que foram estudar para fora sem perder o orgulho nas suas raízes e têm demonstrado uma enorme vontade em restabelecer o equilíbrio. Em lutar pela autonomia Wayuu, enaltecer a sua cultura, mas num contexto de contacto e interacção com o governo central, defendendo os seus direitos. Não nos cabe a nós, como visitantes, impor a nossa ideologia. Cabe-nos, sim, promover um contacto respeitoso e educativo com as comunidades que nos recebem. Que nos permitem pisar aquela terra com a deferência que eles mesmos demonstram, que a vêem como parte da sua essência, como parte daquilo que os define como Wayuu. Que nos transmitem o privilégio que é partilhar o seu ii, o território, as pegadas que eles já ali deixavam no começo dos tempos.