Um Projeto Comunitário de Educação, Formação e Cuidado em Ambohimahasoa, Madagáscar
Ao longo dos últimos três anos, este projeto foi-se construindo de forma natural e silenciosa, até se tornar o projeto de responsabilidade social da Agência Trilhos da Terra em Madagáscar. Para a agência, esta iniciativa ganhou um nome simples, escolhido com cuidado: Namana, que em malgaxe significa “Amigo”.
Namana não nasceu de um plano estratégico nem de um financiamento estruturado. Nasceu de relações humanas, de tempo partilhado, de escuta e de presença. Quem viaja com os Trilhos da Terra em Madagáscar e conhece o Ando percebe rapidamente que está perante alguém profundamente ligado à sua comunidade, atento às fragilidades à sua volta e disposto a agir com os meios que tem.
Este projeto foi crescendo a partir do salário do próprio Ando, de donativos da Trilhos da Terra, de contributos solidários de viajantes, e do esforço direto da comunidade local, que ajuda com as próprias mãos — na construção, na manutenção, na organização e no dia a dia do centro. Pequeno gesto a pequeno gesto, começaram a criar-se condições para que crianças e jovens tivessem acesso a algo básico: aprender, comer, estar em segurança e sentirem-se acompanhados.
A filosofia do Namana é simples e profundamente prática: partilhar para capacitar. Não se trata de dar respostas rápidas nem de assistencialismo. Trata-se de criar condições para que cada pessoa possa aprender, trabalhar, errar, crescer e encontrar o seu lugar. Formar, educar, nutrir e incluir são ações concretas, vividas diariamente.
O projeto é acompanhado regularmente com o envio de fotografias das atividades, do funcionamento do centro de formação/escola e da evolução das crianças e jovens diretamente envolvidos. As pessoas que apoiam o projeto têm acesso à informação sobre as transferências realizadas mensalmente, garantindo transparência financeira. Nas viagens dos Trilhos da Terra a Madagáscar, realizam-se também visitas ao centro, permitindo perceber no terreno a evolução real, com tudo o que corre bem e com tudo o que ainda falta fazer.
O Namana é um projeto de responsabilidade social de carácter informal. Não pretende tornar-se uma ONG nem criar estruturas pesadas em Portugal, tendo em conta que é um projecto de apoio a uma associação local malgache em Ambohimahasoa. É apenas um meio simples de contribuir com pouco para ajudar muitos, respeitando o ritmo da comunidade e as suas realidades.
A Realidade Que Não se Pode Ignorar
A realidade educativa e social em Madagáscar continua a ser marcada por profundas desigualdades. Atualmente, mais de 43% das crianças em idade escolar não têm acesso à educação, maioritariamente por razões financeiras (UNICEF, 2024). Esta situação é particularmente visível fora dos grandes centros urbanos, como na comunidade de Ambohimahasoa.
Nesta comunidade, mais de 50% dos jovens abandonam a escola após a conclusão do ensino secundário, permanecendo desempregados e dependentes das famílias. Cerca de 30% dos adolescentes abandonam o percurso escolar entre os 15 e os 18 anos, muitas vezes antes de adquirirem competências básicas ou profissionais.
Enquanto algumas famílias com maiores recursos conseguem enviar os seus filhos para as grandes cidades, a maioria dos jovens provenientes de contextos frágeis vê-se forçada a procurar trabalho precocemente, aceitando frequentemente condições precárias, com longas jornadas e salários abaixo do mínimo.
O Estado e os seus serviços descentralizados não dispõem de respostas suficientes para estas lacunas. A ausência de centros de formação profissional acessíveis e orientados para jovens vulneráveis perpetua este ciclo.
Foi neste contexto que, no período pós-pandemia, Ando decidiu assumir pessoalmente a gestão de um centro comunitário de formação e escolarização, orientado para jovens e crianças sem capacidade financeira, incluindo crianças em situação de rua.
A escola funciona num terreno adquirido pela sua mãe, simbolizando o envolvimento familiar e comunitário. Posteriormente, o centro beneficiou do apoio do programa estatal Formaprod, que permitiu a construção da atual sala de formação. Os materiais principais foram fornecidos pelo programa, enquanto jovens e pais participaram ativamente na produção de tijolos e nas obras.
Atualmente, o funcionamento do centro conta com o apoio de parceiros portugueses, nomeadamente da Agência de Viagens Trilhos da Terra e de alguns dos seus viajantes.
312 Razões para Continuar
O centro acompanha atualmente 312 beneficiários, todos provenientes de contextos familiares vulneráveis:
Alfabetização: 12 crianças
Curso de francês oral: 27 crianças
Ensino geral – 3.º ano: 32 alunos
Ensino geral – 7.º ano: 17 alunos
Formação em corte e costura: 34 participantes
Formação em construção e edifícios: 16 jovens
Escola de futebol: 156 crianças e jovens
Clube de kickboxing: 18 jovens
Porquê este Projeto?
Os jovens representam uma força essencial para o desenvolvimento da comunidade. No entanto, muitos enfrentam abandono escolar, desemprego, ausência de formação adequada e falta de espaços seguros de aprendizagem, cultura e desporto.
Este projeto nasce da convicção simples de que quando um jovem é acompanhado e valorizado, pode mudar o seu percurso de vida — e, com isso, contribuir para a sua comunidade.
Objetivos Gerais
Promover a autonomização e a inserção socioeconómica de jovens através da educação, da formação profissional, da cultura, do desporto e da participação cívica, oferecendo uma segunda oportunidade educativa a crianças e jovens desfavorecidos.
Objetivos Específicos
- Desenvolver competências técnicas, profissionais e organizacionais
- Oferecer uma segunda oportunidade educativa
- Apoiar a criação de atividades geradoras de rendimento
- Incentivar a participação comunitária
- Promover o desporto e a cultura como ferramentas de inclusão
O Que Já Mudou — e o que Ainda está a Crescer
O projeto procura gerar impactos simples e concretos: jovens mais preparados, maior continuidade escolar, menos exclusão e uma comunidade mais coesa.
Como resultados já alcançados, destaca-se a criação de uma micro-empresa de confeção de vestuário, fundada por mulheres e jovens raparigas que concluíram a formação em corte e costura, em associação com a sua formadora. Donativos de viajantes permitiram adquirir máquinas e tecidos, possibilitando o início da atividade produtiva.
Outro resultado muito relevante foi a entrada em funcionamento regular da cantina social. A cantina assegura uma refeição diária equilibrada a crianças e jovens com poucos recursos, melhorando a nutrição, a saúde, a assiduidade escolar e a capacidade de aprendizagem. Para muitos, é a refeição mais consistente do dia.
A partir do contacto de uma viajante foi possível ao F.C.Porto doar uma grande quantidade de equipamentos para as crianças e jovens do clube (ASFA) afecto ao projecto NAMANA.
O que Acontece Todos os Dias no Centro
Alfabetização e educação cívica
Identificação de jovens e adultos em situação de iliteracia e realização de aulas de leitura, escrita, cálculo básico e cidadania.
Necessidades: sala de aula, professores, material pedagógico, mobiliário escolar e cantina social.
Ensino geral para alunos desfavorecidos
Acompanhamento educativo segundo o currículo nacional. O centro tem licença para orientar formações, mas não é equiparado a uma escola pública oficial. Os graus podem ser validados através de exames oficiais. O sistema de ensino em Madagáscar é inverso ao português, começando no 12.º ano e terminando no 1.º.
Necessidades: salas, professores, livros, biblioteca, internet e cantina.
Formações profissionais e técnicas
Formações de curta duração em agricultura, pecuária, construção civil, corte e costura, culinária, pastelaria e mecânica automóvel.
Necessidades: formadores, equipamentos técnicos, ferramentas, projetor, água potável e instalações sanitárias.
Módulos transversais
Educação financeira, planeamento familiar, desenvolvimento pessoal, saúde e cidadania.
Necessidades: facilitadores, material pedagógico e espaço de grupo.
Ateliers de liderança e cidadania
Sessões participativas sobre liderança, direitos humanos, ambiente e governação local.
Necessidades: sala, facilitadores e materiais de apoio.
Escola de futebol e clube de kickboxing
Treinos regulares e competições locais.
Necessidades: treinadores, campo e equipamento desportivo.
Cursos de línguas
Francês e inglês com enfoque prático.
Necessidades: professores, salas e material didático.
Centro cultural e musical
Promoção da expressão artística e cultural.
Necessidades: espaço cultural, instrumentos musicais e formadores.
O Sonho que Ainda está por Construir
Projetos Futuros
O projeto tem a ambição — e sobretudo o sonho — de criar um polo universitário local para jovens bacharéis de famílias vulneráveis, através de parcerias com universidades privadas, permitindo a continuidade dos estudos sem migração.
Visão a Longo Prazo
A longo prazo, o Namana pretende ser um espaço comunitário estável e autosustentável, onde educação, formação, cultura e desporto coexistem de forma simples e integrada.
Mais do que formar profissionais, procura acompanhar pessoas, ajudando-as a ganhar autonomia, confiança e sentido de pertença. Acredita-se que quando alguém acredita num jovem, esse jovem aprende a acreditar em si próprio.
A tua Parte Nesta História
Caso pretendas ajudar com o teu donativo e quereres acompanhar este projecto mais de perto envia-nos um email para o info@trilhosdaterra.com ou mensagem via whatsapp para o +351919633178.
Este contacto é importante para que te coloquemos na lista de pessoas a ser informada do que se vai fazendo no projecto e quais são as necessidades mais urgentes.
Por fim podes enviar o teu donativo para o mesmo número de telefone via MBway, deves colocar o descritivo “NAMANA”.
Disclaimer Legal – Enquadramento do Projeto Namana
O projeto Namana é um projeto de responsabilidade social informal da Agência de Viagens Trilhos da Terra, sem personalidade jurídica própria e não constituído como ONG, associação ou fundação.
As atividades educativas e formativas são desenvolvidas pela associação local NAMANA que possui o centro de formação comunitário local, onde orienta formações e percursos educativos, embora não equiparado a uma escola pública oficial. A validação académica dos alunos é realizada através da submissão a exames oficiais, de acordo com a legislação em vigor em Madagáscar.
Os apoios financeiros recebidos destinam-se exclusivamente ao funcionamento do centro, às atividades educativas, à cantina social e ao apoio direto às crianças e jovens envolvidos. A gestão é feita de forma transparente e acompanhada regularmente, com partilha de informação junto das pessoas que contribuem para o projeto.