Spitzkoppe: Entre o Granito e o Silêncio

Uma história por Tânia Muxima

Já o sol ia alto quando Uis, uma pequena povoação discreta no deserto da Namibia, ficou para trás. Perdida no meio de poeira, do sol e do tempo lento, tudo em Uis parece provisório, como se ninguém tivesse a certeza de permanecer ali por muito tempo.

Abastecer o carro com combustível, comprar água e mantimentos para os próximos dias e seguir viagem, por uma estrada que aos poucos deixava de prometer conforto, uma estrada de terra batida, larga, ocre, marcada por irregularidades que obrigam a reduzir a velocidade. O carro avança à frente de uma  nuvem de pó fino que se levanta lentamente, como se o próprio deserto respirasse. A condução torna-se rítmica: volante firme, olhos fixos na estrada e atenção constante. Aqui a pressa não faz sentido. Com o passar dos quilómetros a paisagem começa a abrir-se. Arbustos baixos, árvores isoladas, pedras espalhadas, a estrada estende-se reta por longos momentos e de vez em quando curva suavemente, sempre sem aviso. Não há trânsito. Não há ruído além do motor e do vento. Cada quilómetro percorrido é um deixar para trás um mundo organizado até que o Gross Spitzkoppe começa a surgir no horizonte. Primeiro como uma linha escura e indefinida, depois como forma e, mais tarde, como presença.

Quanto mais avançamos, mais surreal parece. A montanha cresce depressa demais para algo que parecia tão distante. Mantém-se isolada, solitária e desproporcional a tudo o que a rodeia. A estrada aproxima-se lentamente do maciço e o terreno torna-se mais áspero e cru. A sensação de entrada num espaço diferente é clara.

Ao chegar ao Spitzkoppe Community Campsite, o silêncio instala-se de imediato. O parque não se impõe com infra-estruturas nem com marcas evidentes da presença humana, impõe-se, antes, pelas suas formações rochosas monumentais, de granito antigo, com mais de 120 milhões de anos, que emergem no deserto com uma força incontestável.

Chego ao final da tarde e escolho um lugar, em frente à montanha, para montar a tenda. A esta hora o sol já não castiga, a luz perde a dureza do meio dia e transforma-se numa claridade obliqua e dourada. Tons de cobre e laranja espelham-se nas paredes naturais do parque e salientam curvas e fissuras nas montanhas que antes não se viam. O silêncio é absoluto, interrompido apenas pelo vento e pelo grito distante de aves do deserto.

Durante a noite acordo várias vezes para espreitar lá fora. O céu estrelado tomou conta de tudo. Sem qualquer poluição luminosa, a Via Láctea estende-se de horizonte a horizonte como uma faixa luminosa. Não há distrações, há apenas escuridão profunda e, dentro dela, milhares de pontos luminosos a reclamar atenção. O contraste é absoluto: em baixo, a montanha escura, maciça, com milhões de anos, em cima, um céu infinito, em permanente movimento.

Nem as poucas horas de sono me deixam permanecer na cama por muito tempo. Ainda de noite, salto da tenda e preparo tudo para o tão esperado dia. Há anos que sonhava subir aquela montanha e contemplar um dos meus lugares preferidos de cima e de longe.

Tecnicamente, o Gross Spitzkoppe é um percurso de apenas 3,5 km’s com 500m de desnível positivo. Mas, no terreno, esta montanha é muito mais do que isso. Com 1728m de altitude, o Gross Spitzkoppe é uma montanha que nos testa. Um granito que se ergue antigo e sem trilhos evidentes, exigindo atenção, respeito e presença total. A ascensão é técnica, física e sobretudo mental. Não há um caminho óbvio a seguir, o granito, esculpido pelo vento e pelo sol, apresenta passagens que exigem não apenas força, mas uma leitura precisa de cada gesto e pausas obrigatórias para respirar e avaliar.

Desde os primeiros metros se percebe que não é uma subida para improvisos. Aqui, é onde a presença do guia se torna imprescindível. Ele sabe exatamente onde colocar os pés, onde apoiar as mãos, quais as fissuras mais firmes e quais as pedras que podem trair. Sem ele, muitas passagens críticas seriam praticamente impossíveis de descobrir. São trechos estreitos, vertiginosos, onde o vazio parece querer engolir-nos. Parece quase impossível imaginar que isto existe no meio de um deserto tão vasto.

À medida que vamos subindo, a paisagem transforma-se. A planície do deserto estende-se em todas as direcções, plana, vasta, aparentemente infinita. Rochas que pareciam monumentais lá em baixo, parecem agora miniaturas. A montanha obriga à contemplação, cada esforço é recompensado por panorâmicas que nos fazem sentir simultaneamente pequenos e eternos.

Chegar ao cume não é um momento de euforia, nem de celebração imediata. Há silêncio, vento e uma consciência absoluta do lugar onde estou. O Gross Spitzkoppe permanece indiferente à minha presença, sólido e silencioso, e é precisamente essa indiferença que torna o momento tão intenso.

Estar ali, no cume, é uma aula de humildade, de admiração e de respeito pela natureza e pelo tempo que moldou aquela montanha.

A descida exige um cuidado semelhante ao da subida. Cada movimento é medido, cada apoio de mão ou pé é escolhido com atenção. O guia continua a ser a diferença entre a segurança e o risco, mostrando caminhos invisíveis, fissuras firmes, passagens que o deserto esconde aos olhos de quem não conhece.

Olho uma última vez para o cume do Gross Spitzkoppe e percebo que não conquistei uma montanha, conquistei apenas a experiência de a percorrer, com respeito e orientação. É uma jornada em que a montanha nos desafia, mas também nos revela o valor da presença consciente e do respeito por tudo o que nos rodeia.

Já cá em baixo, é hora de continuar a rotina do dia, tomar um banho, relaxar, cozinhar, assimilar tudo o que aconteceu e contemplar mais um fim de tarde de pura magia naquele que é o deserto mais antigo do mundo.

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