Uma jornada pelo místico Vale do Modi Khola

Uma história por Tânia Muxima

O nosso dia começa ainda de noite, saltamos da cama e, pelo escuro da cidade de Pokhara, vamos caminhando em direção ao Phewa. A cidade está a acordar a um ritmo sereno, nós não conseguimos passar despercebidos e somos abordados pelo Bishnu: ‘a boat, do you want a boat?’. No lago Phewa, dezenas de barcos de madeira, pintados de cores vivas, flutuam envoltos numa neblina que nos faz duvidar da beleza daquele nascer do sol. Eu arrisco e negoceio o preço enquanto o nosso amigo, ao mesmo tempo que lança um valor para o ar, sai em corrida, ruela acima, para chamar o seu vizinho, com um segundo barco onde coubesse o resto do grupo. Com toda aquela imprevisibilidade de acontecimentos e, ao mesmo tempo, incerteza se valeria a pena ou não, temos o grupo à beira do lago, a olhar para os barquinhos carregados de humidade da noite e da névoa, indeciso, ao mesmo tempo que em êxtase. O Bishnu chega e saltamos todos para dentro de dois botes coloridos, molhamos os pés e estamos sentados, bem quietinhos, amontoados, ao relento, já a balançar no meio do lago espelhado. Os momentos seguintes foram de pura contemplação, os primeiros raios de sol começaram a tingir o céu de laranja e rosa, cumes de mais de 8000m pintados de dourado e um reflexo de tudo isso desenhado no lago. Não podíamos ter tido uma melhor dádiva por termos tentado a nossa sorte.

Durante o pequeno-almoço no nosso hotel em Pokhara, sentia-se algum nervosismo e, ao mesmo tempo, um sorriso escarrapachado nas caras dos nossos viajantes. Estávamos prestes a sair para o grande objetivo desta nossa viagem. O trekking ao Campo Base dos Annapurnas é um caminho de beleza e resistência. Tudo tem início na aldeia de Siwai, é aqui que conhecemos os nossos porters, é aqui que questionamos como vão levar as nossas mochilas e é aqui que nos damos conta de quão heroico é o desempenho deste trabalho, que fazem de uma forma incansável e sempre com um brilho enorme nos olhos. É aqui que o nosso nervosismo dá lugar a uma adrenalina de quem está prestes a concretizar um sonho: caminhar por estes vales mágicos dos Himalaias até onde não dá para caminhar mais, até onde olhamos para cima e imaginamos alpinistas em miniatura, que andarão por ali a tentar o cume.

Em Siwai, adaptamos as mochilas, nos próximos 8 dias elas serão parte de nós, ajustamos os bastões e fazemo-nos ao caminho. É um dia curto, familiarizamo-nos com as características do caminho e com a dinâmica das Tea Houses. São 3 horas e 3 km. As últimas duas horas, em escadaria por ali acima, testam-nos as pernas, ao mesmo tempo que nos mentalizam para o que temos pela frente nos próximos dias.

É uma encosta com história e tradição. É aqui que vivem as lendárias abelhas dos Himalaias e, desafiando a gravidade e o olhar humano, vemos pendurados dezenas de favos, carregados de mel alucinógeno, o mel louco, proveniente do néctar dos rododendros, plantas nativas das altas montanhas. Utilizado para fins medicinais e recolhido pelo povo Gurung, a caça ao mel em Siwai é um ritual de coragem e tradição. Com cordas de bambu e escadas rústicas, os locais desafiam a fúria das abelhas e a ameaça do vazio sob os seus pés.

Chegamos a Landruk, uma aldeia de caminhos estreitos, casas de pedra e madeira, plantadas nas verdejantes encostas em forma de socalcos, onde abundam plantações de milho, arroz e hortaliças. Instalamo-nos nos nossos acolhedores quartos e depressa nos juntamos a desfrutar dos últimos raios de sol, uma cervejinha e a vista para a montanha mais mística deste vale, o Machapuchare.

Acordamos e, pela fresca, arrancamos para o primeiro dia a sério do nosso trekking. Uma manhã carregada de emoções, pontes tibetanas sobre impetuosos rios, florestas exuberantes, fotos e gargalhadas. Atravessamos aldeias cujo ritmo de vida é o ritmo da natureza e da montanha, onde a forma de sustento é a criação de búfalos, cabras, a agricultura e o turismo e a proveniência de toda a força deste inigualável povo são as suas crenças, aliadas ao poder do Dal Bhat. Uma escadaria de horas, com vistas incríveis, onde cruzamos porters, de passos firmes e costas calejadas. Dá que pensar, tudo o que consumimos vai praticamente ali, são cargas que ultrapassam por vezes os 40kg, equilibradas apenas por uma simples namlo, apoiada na testa. Estes são os grandes responsáveis pelo nosso bem-estar naquele vale. Chegamos a Chomrong a tempo de contemplar um pôr do sol incrível e nos instalarmos na sala quentinha da nossa Tea House, a beber um chá de gengibre e a partilhar tudo o que sentimos e vivemos juntos neste grandioso dia.

Nos dois dias seguintes, o caminho leva-nos montanha adentro, sempre na companhia das cristalinas águas do Modi Khola, deixando o verde da ancestral floresta para trás e entrando num cenário de gigantes de rocha e glaciar. Chegámos ao Campo Base do Machapuchare, onde a montanha sagrada revela toda a sua grandiosidade. Estamos a 3 700 m de altitude pela primeira vez para a maioria dos elementos deste grupo de corajosos viajantes. Temos à nossa frente a lendária montanha do Machapuchare, uma montanha sagrada, de silhueta bifurcada e intocável, reverenciada como a morada do deus Shiva, protegida pelo governo do Nepal, que proíbe qualquer tentativa de escalada do seu cume.

Temos pela frente apenas 3h de caminhada até ao ponto alto do nosso trekking, o ABC (Annapurna Base Camp). Um caminho tranquilo, com pouco desnível, que nos leva a um dos lugares mais mágicos dos Himalaias. A grandiosidade deste lugar entra-nos pela alma e leva-nos a sonhar. Faz-nos pensar se haverão pessoas a escalar estes imponentes cumes que nos envolvem, onde será o caminho, onde dormem, será que os vemos. São questões que nos passam pela cabeça e que nos enchem a alma e nos fazem contemplar todo aquele anfiteatro de montanhas nevadas à nossa volta. Estamos de olhos virados para algumas das montanhas mais altas do mundo, do mundo mesmo, histórias que lemos, documentários que vemos, é tudo ali e esse sentimento não nos deixa indiferentes, por dentro e por fora, os nossos sorrisos involuntários comprovam isso mesmo. É um sentimento de emoção, de objectivo cumprido, uma conquista física e espiritual,  que toma conta de nós e já nem o pequeno mal estar, consequência da altitude, nos incomoda. O céu azul e um pôr do sol rosa e laranja, dão lugar a um céu profundo e estrelado, onde as silhuetas de todas estas montanhas se destacam por entre as sombras da lua e de algumas nuvens que passeiam por ali. A tea house está cheia, e o grupo é amontoado em dois quartos, enquanto a sala de estar está repleta de gente com um brilho nos olhos e de alma cheia. Dhal bhat, pizza, sopa, momo, chá, uma mistura de aromas e cheiros invade a sala, de vidros embaciados, enquanto os mais corajosos estão lá fora a contemplar. A noite é curta, entre as insónias, fruto da altitude, as idas à casa de banho e as fotos nocturnas naquele cenário mágico e imponente. O sol nasce cheio de espectadores, as cores são incríveis e nós fazemo-nos ao caminho, que hoje o dia é de uma longa jornada sempre a descer até Bamboo. Bamboo é um dos lugares onde mais gosto de parar. É surreal deixarmos para trás o Campo Base, num cenário de pedra e neve, e irmos dormir numa aldeia plantada numa clareira, em plena floresta, carregada de mitos e estórias. 

Acordamos ainda de noite, temos o dia mais difícil pela frente. Com as pernas já cansadas de tudo o que viveram nos últimos dias, temos pela frente a famosa subida de Chomrong e a dura descida até Jhinu Danda, onde os nossos melhores amigos serão os bastões. Esta dura caminhada será recompensada ao fim do dia. As águas termais de Jhinu Danda surgem como um presente divino, quentes e acolhedoras, como se a própria terra nos recebesse de braços abertos e o cansaço das longas jornadas perdesse a sua força, e os corpos exaustos encontrassem naquelas águas um refúgio de tranquilidade e regeneração. 

Com o corpo e a alma relaxados, saímos cedinho para o nosso último dia de caminhada, que nos leva até à aldeia Gurung de Gandruk, onde o tempo parece ter parado e a natureza governa de forma imperativa e harmoniosa. Construída pelas mãos calejadas do povo Gurung, com as suas casas de xisto escuro e telhados rústicos, esta aldeia desenha um dos quadros mais pitorescos deste vale, um lugar que mistura a simplicidade da pacata vida rural com a grandiosidade das montanhas que a cercam. 

A nossa viagem termina aqui e, depois de saborearmos uma iguaria local em casa de uma família, saltamos para dentro dos nossos jipes que nos levam, ao som de uma modinha nepalesa, de volta para a cidade de Pokhara, onde vamos comemorar e relembrar as emoções dos últimos dias.

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